adicionar aos favoritos | São Paulo/SP

20/05/2006 13:26
Do Canto I do Inferno
(Dante Alighieri)
No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.
Ah, como armar o ar numa figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?
É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que eu encontrei,
outros dados darei da minha sorte.
Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.
Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,
e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia.
Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;
e como o náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,
O meu ânimo, ainda fugitivo,
Voltou a contemplar aquele espaço
Que nunca ultrapassou um homem vivo.
Depois que descansei o corpo lasso,
recomecei pelo plaino deserto,
pé firme em baixo, mas incerto o passo;
e quando o fim da estrada estava perto,
um leopardo ligeiro, de repente,
que de pele manchada era coberto,
surgiu e se postou na minha frente,
e com tal vulto encheu o meu caminho
que só “voltar”volteava em minha mente.
Era a hora do tempo matutino.
Subia o sol seguido das estrelas
que o acompanhavam quando o Amor divino
moveu primeiro aquelas coisas belas.
Já não temia tanto a aparição
daquela fera de gaiata pele
à hora clara e à suave estação.
Mas o temor de novo me conquista
à imagem imprevista de um leão
que parecia vir na minha pista
com alta fronte e fome escancarada
como se o ar tremesse à sua vista.
E uma Loba magra, macerada
de todas as espécies de avidez,
que levou muita gente à derrocada,
fez-me sentir o peso de meus pés,
e fiquei, preso ao pó do meu pavor,
sem esperança de sair do rés.
Tal como a gente rica perde a cor
quando sente a fortuna abandoná-la,
que só sabe chorar a sua dor,
assim a fera me deixou sem fala,
e, vindo ao meu encalço, a Loba atroz
me encurralava lá, onde o Sol cala.
(Tradução de Augusto de Campos)