adicionar aos favoritos | São Paulo/SP

19/06/2006 11:17
(Para Cristina)
Quando minha mãe me pediu para rever pastas, álbuns e caixas antigas minhas, guardadas no quartinho dos fundos, quando minha casa ficou menor, imaginei uma missão impossível para aquele dia. É que quando a vida comprime os olhos assim, confusos e calados, minhas mãos paralisam também.
Sentei-me no quintal de sua casa e um vento frio veio me trazendo lembranças: poemas, textos, provas, a primeira foto da faculdade, o trabalho sobre o Leminski, a imagem da biblioteca, das intermináveis discussões e do primeiro amor pela poesia.
Duas velas rosa e os amigos da festa de quinze anos transitaram de novo ali, naquele mesmo corredor.
As melhores amigas que perdi, outras que reencontrei anos depois, hoje cúmplices das descobertas de mulher.
O convite de casamento, os convites das formaturas, o convite do 1o. aninho da filha: chamados a novos rumos dos pés. E tanto se caminhou sem imaginar o que a estrada reservaria.
Os ingressos do show do Sting, a palheta do Lulu, o primeiro holerite, vinte anos depois.
As lembranças desordenadas como a minha respiração diante daquele passado que me despreparava a cada instante para rever. Os achados não seguiam ordem cronológica, assim como os pensamentos.
Mergulhada naquela hora de saudade, de onde não emergi até agora, olho as duas pastas, desbotadas de tempo e de luz, filtradas pelas minhas mãos, e penso que a lembrança vai além, vai muito, muito além do que se pode tocar.
*pintura de Van Gogh