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O bilhete

O bilhete

23/04/2008 08:55

Por Débora Tavares


Para Teca, que voltava de Minas.



O sol se alaranjava às montanhas de uma cidade de Minas quando cheguei à rodoviária.
Sombreando minha mala, rastros de trilhos e ladeiras, de generosidades e lembranças doces.
Enquanto caminhava em direção à plataforma, avistei uma família: pai, mãe e dois filhos. Aflito por informações, o pai aproximou-se do guichê: "Como chego até esta cidade?" E abriu um papelzinho amarrotado.

O filho e a filha, agarrados às pernas da mãe, os olhinhos pretos e arregalados. A mãe observava, atenta e sem fala, a atendente explicar que seria preciso ir até São Paulo e de lá um outro ônibus rumaria para a cidade que ficava no Sul.
O pai fez que sim com a cabeça, tirou do bolso da calça cinza, duas notas e ajeitou no outro bolso o bilhete.
"Vem cá dá um abraço no pai, minha neguinha". E a filhinha ajeitou a cabeça no seu ombro, as fitinhas vermelhas nos cabelos, de um lado e de outro.
Depois foi a vez do filho, um pouquinho menor, num abraço tímido e choroso.
Por fim, a mãe com os filhos nas pernas, deu um passo adiante e um abraço firme: "Vai com Deus".

O meu olhar era de estranhamento e compaixão daquelas crianças e daquela mãe que ficaria só, com os dois filhos, sabe-se lá vivendo de que jeito, que as condições eram visivelmente precárias, ainda que afeto não faltasse.

Entrei no meu ônibus rumo a São Paulo que era chegada a minha hora de desenredar. Aquela família no pensamento, quando avistei o pai subindo os degraus da porta da frente. Acompanhei-o com o olhar meio raivoso, depois de ver pela janela a mãe e as crianças, paralisadas, olhando para o alto.
Ele não trazia nenhuma bagagem. Trazia a roupa do corpo. E um agasalho na mão. Fechei os olhos já úmidos, de uma tristeza muda, para não ver o desenlace do aceno.

Quando o ônibus alcançou estrada e o vento já confirmava a viagem, ainda de olhos fechados, ouvi soluços.
Virei-me para a poltrona de trás, com metade do rosto escondido no encosto de cabeça do banco. Um pai de olhos úmidos, de tristeza muda profunda, segurava seu bilhete da sorte.





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