adicionar aos favoritos | São Paulo/SP

14/07/2008 13:06
Um filme leve, bem-humorado. Mas quem disse que a leveza não é densa, como já dizia o poeta?
Juno me levou pela mão ao túnel do tempo. Não ao túnel da memória, mas aos subterrâneos das emoções.
Voltei ao momento em que eu ensaiava, na sala, a decisão de subir as escadas e contar ao meu pai que estava grávida. Dezessete anos, eu vestia uma saia florida de rosa-choque e branco, da melhor amiga. Ainda estava na fase de trocar as roupas com as amigas, de vestir roupas idênticas às delas, de identificação. Naquele dia, em especial, a melhor amiga estava comigo, florida, mesmo sem saber de nada. Meu pai reconheceu em meus olhos a aflição e o medo. Pediu que eu me acalmasse como quem pede a si mesmo e me ouviu.
Voltei aos corredores largos do colégio, por onde eu caminhava, em câmera lenta, rodeada de olhares fixos e cochichos que me apontavam com incredulidade.
No círculo de cadeiras verdes, na sala de aula, nua diante da professora de português, fui o exemplo a não ser seguido pela meninas do curso magistério. E a concretização de seus desejos secretos.
Final da década de 80, sexo proibido a garotas e garotos apaixonados, exalando hormônios e vontade. Todos faziam sexo escondido, na garagem, no sofá da sala... Desprevinidos e inocentes. Previnidos e "rebeldes". O corpo pertencia a um deus fictício e repressor que as aulas de religião mentiam. O corpo pertencia à sociedade. O corpo pertencia a qualquer outra pessoa que não nós mesmos.
Juno tomou a decisão mais acertada para si, ainda que não soubesse ao certo quem era ela. E foi com olhar otimista que percebi uma opção diferente para a adolescente grávida (seja ela qual for): aquela que atende à sua vontade, aquela que a respeita, aquela que a protege.
cena do filme "JUNO"