adicionar aos favoritos | São Paulo/SP

12/08/2008 15:19
Por Débora Tavares
Vasculhei hoje uma livraria em busca de um presente de aniversário para meu pai.
Lembrei-me então de uma falta de memória: a de meu pai lendo um livro.
O jornal ele lia diariamente. Chegava em casa todos os dias às 17h30, tomava uma pequena dose de conhaque e estendia o jornal sobre a mesa da cozinha, enquanto minha mãe preparava o jantar. Teciam alguns comentários sobre a rotina do dia e permaneciam em silêncio (lembrei-me agora do cheiro da carne, do tempero de minha mãe...).
Não herdei de meu pai o gosto pela literatura, mas pela arte. Habilidoso na arte da escrita, sua exímia caligrafia apresentou convites de casamento, nossos cartazes escolares e outros tantos papéis.
Nunca frequentou qualquer curso de arte, mas desenha com habilidade, cria belos trabalhos em marcenaria, mosaico e pintura.
Caprichoso e cuidadoso com as plantas, artesão de várias belezas.
Meu pai não costumava contar-nos histórias, especialmente as suas próprias. Lembro-me, porém, de ter lido na infância, uma redação que ele escrevera por volta dos 12 anos "Quem tudo quer, tudo perde". Texto muito bem escrito, caligrafia azul tinteiro impecável na folha de seda, contava a história de dois meninos e um abacateiro, se a memória não me falha.
Aquela produção escrita me marcou. A primeira e uma das poucas que conheci.
Continuarei a pesquisa de seu presente. Um livro que lhe agrade, distraia e engrandeça, embora a busca já tenha trazido a mim um presente também : um contorno, um leve sombreado de meu pai.
imagem: arte sumi-ê